12 de abr. de 2011

Jean-Paul Sartre - A idade da razão.

"... Repetia com espanto: "Impedir que nasça..." Dir-se-ia que havia algures uma criança já formada, aguardando o momento de pular para o lado de cá do cenário, neste cômodo, neste sol, e Mathieu lhe fechava o caminho."

- Pois é por isso mesmo - disse Mathieu -, você pode ajudar-nos. Quando você teve... esse aborrecimento, você procurou alguém, um russo, creio.
- Foi - disse Sarah (sua fisionomia alterou-se). - Era horrível!
- Ah! - disse Mathieu com uma voz transtornada. - É... é muito doloroso? 
- Não muito, mas... - disse ela com um ar lastimável - ... eu pensava no pequeno. Você sabe, era Gomez quem queria. E quando ele queria alguma coisa, naquele tempo... mas foi um horror, nunca eu... poderia me pedir de joelhos, agora, eu não o tornaria a fazê-lo.
Olhou Mathieu com olhos esgazeados.
- Deram-me um pacotinho depois da operação e me disseram: "Jogue isso na privada". Numa privada. Como um rato morto! Mathieu - disse ela, apertando-lhe fortemente o braço - , você não sabe o que vai fazer!
- E quando a gente põe uma criança no mundo, a gente sabe? - perguntou Mathieu encolerizado.
Uma vida! Uma consciência a mais, uma pequena luz perdida, que voaria em círculo, se chocaria contra as paredes e não poderia escapar.

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